Entrar numa academia pela primeira vez é uma experiência curiosa: você chega com a sensação de que todo mundo sabe exatamente o que está fazendo — menos você. As máquinas têm nomes que parecem saídos de um catálogo de aviões (“pulldown”, “leg press”, “hack”), as pessoas colocam anilhas como quem arruma a mesa do jantar, e há sempre alguém executando um movimento que parece simples, mas que, quando você tenta, revela um detalhe humilhante: equilíbrio, respiração, coordenação, coragem.
A boa notícia é que começar bem não tem nada a ver com saber tudo. Tem a ver com escolher o básico certo — e repetir o básico o suficiente para que ele deixe de ser “básico” e vire “seu”.
Para quem está iniciando, existe um objetivo silencioso que vale mais do que qualquer carga: aprender padrões de movimento. Agachar, empurrar, puxar, levantar, carregar. São ações humanas, anteriores à academia. O ambiente só dá um nome moderno a algo que seu corpo já sabe fazer — e que agora você vai fazer com mais intenção.
A seguir, você vai ver sete exercícios que, juntos, formam um “kit iniciante” muito eficiente: trabalham o corpo inteiro, ajudam a ganhar força sem pressa e criam uma base para praticamente qualquer objetivo — emagrecer, ganhar massa, melhorar postura, ter mais energia, sentir-se mais confiante. Em cada um, vou te mostrar o que ele treina, como fazer com segurança, erros comuns e uma progressão simples.
Como usar este artigo na prática
Você não precisa fazer os sete exercícios no mesmo dia. Pense neles como peças de um quebra-cabeça.
Uma forma simples de começar é treinar 3 vezes por semana, alternando dois treinos:
- Treino A: agachar + empurrar + puxar + core
- Treino B: “levantar” (quadril) + pernas + costas + core
O mais importante no começo é:
- Dominar a execução
- Treinar com consistência
- Aumentar a carga ou as repetições aos poucos
Agora, vamos aos exercícios.
1) Leg Press — o “agachamento” com estabilidade
O que treina: coxas (quadríceps), glúteos, posterior de coxa; e, de quebra, te ensina a produzir força com as pernas sem exigir muita coordenação.
O leg press é um ótimo primeiro passo porque oferece apoio para as costas e dá uma sensação de controle. Ele não substitui o agachamento livre para sempre — mas é um ótimo ponto de partida para quem está começando.
Como fazer (o essencial)
- Ajuste o banco para que, na posição inicial, seus joelhos fiquem dobrados sem encostar no peito.
- Pés na plataforma na largura dos ombros, levemente apontados para fora.
- Desça controlando (sem “cair”).
- Suba empurrando a plataforma, sem travar os joelhos com violência.
Cues que ajudam
- “Pé inteiro no chão”: empurre com o pé todo, não só com a ponta.
- “Controle na descida”: descer bem é metade do exercício.
- “Joelhos acompanham os pés”: eles não precisam colapsar para dentro.
Erros comuns
- Descer demais e tirar o quadril do banco (a lombar arredonda).
- Empurrar só com a ponta do pé.
- Trancar o joelho no topo e “descansar” na articulação.
Progressão simples
Quando o leg press estiver confortável, você pode introduzir variações como o agachamento no smith ou o agachamento goblet com halter (segurando o peso no peito).
2) Puxada na barra (Pulldown) — costas de verdade, postura melhor
O que treina: costas (principalmente latíssimo do dorso), bíceps, músculos que ajudam a estabilizar o ombro.
Se existe um exercício que melhora a sensação de “postura aberta” e te dá o gosto de construir costas, é a puxada na barra. Além disso, ela é uma ponte real para quem quer, um dia, fazer barra fixa.
Como fazer
- Sente-se com as coxas travadas no apoio.
- Pegada um pouco mais aberta que os ombros.
- Puxe a barra em direção à parte alta do peito.
- Suba de volta com controle, sem “soltar” o peso.
Cues
- “Peito alto, ombros longe das orelhas”.
- “Pensa em puxar com as costas, não com a mão”.
- “Cotovelos para baixo e para trás”.
Erros comuns
- Puxar atrás da cabeça (não é necessário e costuma irritar o ombro).
- Encolher os ombros e transformar o movimento num “encolhimento”.
- Usar impulso do tronco para roubar repetições.
Progressão
A meta não é “puxar mais peso a qualquer custo”, e sim manter controle. Com o tempo, você pode alternar com remadas (exercício #3) e, mais adiante, explorar barra fixa assistida.
3) Remada baixa (cabo) — costas fortes, coluna feliz
O que treina: meio das costas (romboides, trapézio), dorsais, bíceps; ajuda a equilibrar o volume de empurrar (peito/ombro) com puxar (costas).
A remada é o antídoto para o jeito “encolhido” de quem vive no computador. E é uma das melhores formas de aprender a usar as escápulas (as “placas” do ombro) do jeito certo.
Como fazer
- Sente-se com a coluna longa (sem virar uma concha).
- Segure o triângulo ou a barra.
- Puxe em direção ao umbigo ou à parte baixa do peito.
- Volte devagar, deixando as escápulas deslizarem sem perder o controle.
Cues
- “Cotovelos perto do corpo” (na maioria das variações).
- “Pensa em ‘juntar as costas’, não em ‘puxar com o bíceps’.”
- “Não deixe o ombro ir para frente no final como se estivesse desistindo.”
Erros comuns
- Arredondar a lombar e balançar o tronco.
- Transformar em “remada com impulso”.
- Encolher ombros na orelha.
Progressão
Você pode progredir para remada unilateral com halter, que ensina ainda mais controle e estabilidade.
4) Supino com halteres — peito e ombros com mais liberdade
O que treina: peito, tríceps, ombros; e, com halteres, você ganha um benefício extra: mais amplitude e ajuste natural do ombro.
Para iniciante, o supino com halteres costuma ser mais amigável do que o supino com barra, porque permite pequenas variações de pegada e não “prende” o caminho do movimento.
Como fazer
- Deite no banco com os pés firmes no chão.
- Halteres na linha do peito, punhos neutros e firmes.
- Desça controlando, sem deixar o cotovelo abrir exageradamente.
- Suba e finalize com os halteres alinhados.
Cues
- “Peito aberto, escápulas firmes no banco.”
- “Punho em linha com o antebraço.”
- “Cotovelos a 30–45° do tronco” (mais confortável para muitos).
Erros comuns
- Deixar o punho dobrar para trás.
- Descer rápido demais e perder controle.
- Fazer “meia repetição” por medo de descer.
Progressão
Depois de consolidar a técnica, você pode alternar com supino na máquina (para estabilidade) ou, com orientação, avançar para o supino com barra.
5) Levantamento terra romeno (RDL) com halteres — posterior de coxa e glúteos, sem drama
O que treina: posterior de coxa, glúteos; a lombar trabalha como estabilizadora, não como protagonista.
Esse exercício é um divisor de águas. Ele ensina um padrão essencial: dobrar no quadril (hinge). É o movimento de pegar algo do chão sem “roubar” com a coluna.
Como fazer
- Segure dois halteres à frente das coxas.
- Joelhos levemente flexionados.
- Leve o quadril para trás, mantendo os halteres próximos ao corpo.
- Desça até sentir alongamento no posterior sem perder a coluna neutra.
- Suba empurrando o quadril para frente.
Cues
- “Quadril para trás, como se fechasse uma porta com o bumbum.”
- “Halter colado na perna.”
- “Costas firmes, abdômen ativo.”
Erros comuns
- Agachar em vez de dobrar o quadril.
- Descer além do que sua mobilidade permite e arredondar a lombar.
- Deixar o peso “fugir” para frente.
Progressão
Com o tempo: barra ou aumento gradual de carga mantendo o mesmo controle.
6) Desenvolvimento (ombro) sentado — força acima da cabeça com controle
O que treina: ombros, tríceps; e exige um core que saiba estabilizar.
O desenvolvimento é um exercício que pede respeito. Para iniciantes, a versão sentada (com encosto, se disponível) ajuda a aprender o padrão sem transformar o movimento em um arco lombar.
Como fazer
- Sente-se com postura alta.
- Halteres na altura dos ombros.
- Pressione para cima até quase estender completamente.
- Desça com controle.
Cues
- “Costelas para baixo” (evita hiperextensão lombar).
- “Glúteos firmes” (mesmo sentado, ajuda).
- “Sobe em linha, não para frente”.
Erros comuns
- Arquear a lombar para “ajudar”.
- Encolher ombros para cima.
- Usar carga grande antes de ter controle.
Progressão
Você pode alternar com a versão em pé (mais core) ou com máquinas, dependendo do conforto do ombro.
7) Prancha (e variações simples) — o core que protege todo o resto
O que treina: abdômen como estabilizador (o que é bem diferente de “fazer abdominal”); ajuda a proteger coluna em quase todos os exercícios.
Se existe um exercício que deixa o treino “mais seguro” no conjunto, é a prancha bem feita. O segredo é não transformar em competição de tempo.
Como fazer
- Antebraços no chão, cotovelos abaixo do ombro.
- Corpo em linha reta.
- Contraia glúteos e “feche” as costelas.
Cues
- “Aperta o glúteo e cresce a cabeça para frente.”
- “Não deixa a barriga ‘cair’.”
- “Respira mesmo assim.”
Erros comuns
- Quadril muito alto (vira descanso) ou muito baixo (vira sofrimento lombar).
- Prender a respiração.
- Fazer 2 minutos tortos em vez de 20 segundos perfeitos.
Progressão
Prancha com toque no ombro, prancha lateral, dead bug — variações que fortalecem sem exigir bravura inútil.
Como montar seu primeiro treino (simples e eficaz)
Aqui vai um modelo 3x por semana (A/B/A na primeira semana, B/A/B na seguinte):
Treino A
- Leg press — 3 séries de 8–12
- Puxada na barra — 3 séries de 8–12
- Supino com halteres — 3 séries de 8–12
- Prancha — 3 séries de 20–40s
Treino B
- RDL com halteres — 3 séries de 8–10
- Remada baixa — 3 séries de 8–12
- Desenvolvimento sentado — 3 séries de 8–12
- Prancha lateral (ou dead bug) — 3 séries
Descanso: 60–90s entre séries (um pouco mais nos exercícios pesados).
Regra de ouro: termine a série sentindo que conseguiria fazer mais 1–2 repetições com boa forma. Isso é mais útil do que “morrer” toda sessão.
O que quase todo iniciante erra (e como evitar)
1) Começar pesado demais, cedo demais
No começo, seu corpo aprende rápido — mas tendões, articulações e técnica precisam acompanhar.
2) Treinar no modo “tanto faz”
A diferença entre resultado e frustração costuma ser a mesma: consistência e execução decente.
3) Ignorar costas e core
Se você só empurra (peito/ombro) e não puxa (costas), o ombro cobra a conta.
4) Confundir dor com progresso
Ardência muscular é normal. Dor aguda articular não é. Progresso é repetir o treino — não sair dele destruído.
O final honesto: começar bem é um ato de paciência
O marketing do fitness vende transformação. A realidade vende uma coisa mais discreta: treinar de novo na próxima semana.
Esses sete exercícios não são os mais “instagramáveis”. E isso é ótimo. Eles são confiáveis. Eles constroem base. Eles te dão autonomia para, daqui a alguns meses, entrar na academia e sentir algo raro: que você pertence ali, não porque alguém te autorizou — mas porque seu corpo aprendeu o caminho.
