O tríceps é um músculo injustiçado. Passa boa parte da vida escondido, fazendo o trabalho pesado em silêncio, enquanto o bíceps ganha a fama e as fotos. Mas se você quer braços mais fortes — e mais úteis — o tríceps é o protagonista real. Ele responde por grande parte do volume do braço, participa de quase todo movimento de empurrar e, quando está fraco, costuma transformar exercícios simples (flexões, desenvolvimento, supino) em uma discussão desconfortável entre ombros e cotovelos.
O problema é que muita gente treina tríceps como se estivesse “complementando” o treino, jogando dois exercícios no final e torcendo para funcionar. Funciona… mais ou menos. O tríceps melhora quando você dá a ele três coisas: boas alavancas, progressão e volume suficiente — sem virar um festival de dor no cotovelo.
Este artigo traz cinco treinos (na prática, cinco rotinas prontas) para tríceps que valem seu tempo porque seguem um princípio simples: cada um foi pensado para um cenário real. Você pode fazer no fim de um treino de peito/ombro, em casa com o que tiver, ou como foco principal do dia. Não existe uma única “melhor” rotina; existe a rotina que você consegue repetir com consistência.
Antes de começar: o que você precisa saber sobre tríceps (em 60 segundos)
O tríceps tem três porções (cabeças): longa, lateral e medial. A “mágica” do treino de tríceps é cobrir o conjunto com dois tipos de estímulo:
- Movimentos de empurrar (press) — costumam permitir mais carga e gerar tensão geral.
- Extensões (isolar) — ajudam a trabalhar a parte final do movimento e a cabeça longa, especialmente quando o braço fica acima da cabeça.
A melhor rotina costuma combinar os dois. E, para a maior parte das pessoas, o maior inimigo do tríceps não é falta de exercício — é falta de progressão. Treinar “até sentir que queimou” é divertido por alguns minutos. Melhorar de verdade exige acompanhar repetições, carga e técnica.
Como usar os treinos
- Escolha 1 dos treinos e faça 2x por semana por 4 semanas (se tríceps for sua prioridade).
- Se tríceps for “acessório”, use 1 treino 1x por semana depois de peito/ombro.
- Descanse 60 a 90 segundos entre séries (até 2 minutos nos exercícios mais pesados).
- Trabalhe perto da falha, mas com controle: termine a maioria das séries com 1 a 2 repetições “na reserva”.
Dica importante: se seu cotovelo costuma reclamar, comece com cargas leves e aumente bem devagar. Dores persistentes pedem ajuste de técnica, volume e, às vezes, orientação profissional.
Treino 1: O “clássico eficiente” (academia, pouco tempo, muito retorno)
Este é o treino que você faz quando quer sair da academia com a sensação de “ok, isso contou”. Ele mistura um press pesado com isolamento inteligente.
Aquecimento (2 minutos):
- 1 série leve de pushdown (corda) ou extensão com elástico, 20 repetições.
- 1 série leve de flexão inclinada, 10 repetições.
A) Supino fechado (barra ou halteres)
3 séries de 6–10 repetições
- Cotovelos relativamente próximos ao corpo.
- Pense em “empurrar o chão” com as mãos — firme, sem pressa.
B) Tríceps na polia com corda (pushdown)
3 séries de 10–15 repetições
- No final, “abre” levemente a corda para enfatizar a extensão.
- Ombros para baixo; não transforme em exercício de trapézio.
C) Extensão acima da cabeça na polia (corda) ou com halter
2–3 séries de 10–14 repetições
- Aqui a cabeça longa costuma acordar.
- Mantenha o tronco estável, sem “jogar” as costelas para fora.
Final opcional (1 minuto):
- 1 série de 20 repetições de pushdown bem leve, para “fechar”.
Por que vale seu tempo: é simples, progressivo e cobre o tríceps todo sem inventar moda.
Treino 2: O “sem polia, sem desculpa” (halteres e banco)
Esse é para quem treina em academia pequena, em casa ou em hotel. Ele funciona porque usa bem o que você tem: halteres, banco e gravidade.
A) Supino fechado com halteres
4 séries de 8–12 repetições
- Pegada neutra (palmas se encarando) costuma ser amiga dos cotovelos.
- Controle a descida.
B) Tríceps testa com halteres (skull crusher, versão amigável)
3 séries de 8–12 repetições
- Em vez de levar o halter “na testa”, leve um pouco atrás da cabeça.
- Isso costuma reduzir desconforto no cotovelo e aumenta amplitude.
C) Extensão unilateral acima da cabeça (halter)
2–3 séries de 10–15 repetições por braço
- Movimento limpo, sem pressa.
- Se começar a balançar, diminua carga.
D) Flexão fechada (mãos próximas) ou em banco
2 séries até perto da falha (deixe 1–2 reps na reserva)
Por que vale seu tempo: dá resultado sem exigir máquinas. E te força a treinar com controle.
Treino 3: O “cotovelos felizes” (para quem sente incômodo com facilidade)
Se você já teve aquela sensação de “pontada” no cotovelo depois de tríceps, este treino é um bom recomeço. Mais controle, menos agressividade articular.
A) Pushdown com elástico (ou polia leve) — ritmo lento
3 séries de 12–20 repetições
- 2 segundos descendo, 1 segundo subindo.
- Concentre no tríceps, não na velocidade.
B) Extensão de tríceps com elástico acima da cabeça
3 séries de 12–18 repetições
- Cotovelos “apontam” para frente, sem abrir muito.
- Respire; não prenda o ar.
C) Flexão inclinada (mãos no banco/mesa)
3 séries de 8–15 repetições
- A inclinação reduz carga e mantém estímulo.
- Corpo em linha, sem colapsar lombar.
D) Isometria de tríceps (opcional, 30 segundos)
- Segure a extensão no ponto mais “difícil” com elástico leve.
Por que vale seu tempo: ele fortalece sem irritar. E isso é o que permite treinar por meses — não por uma semana.
Treino 4: O “foco total” (dia de braço — volume que realmente muda o jogo)
Este é para quando tríceps é prioridade. É mais volume, mas ainda organizado.
A) Paralelas (dips) assistidas ou no banco
4 séries de 6–10 repetições
- Se dips incomodam ombros, use máquina assistida ou faça no banco com cuidado.
- Tronco levemente inclinado, cotovelos controlados.
B) Supino fechado (barra/halter)
3 séries de 6–10 repetições
C) Pushdown (corda ou barra)
3 séries de 10–15 repetições
D) Extensão acima da cabeça (halter ou polia)
3 séries de 10–14 repetições
E) Final: “pump” controlado
1–2 séries de 20 repetições (leve)
Por que vale seu tempo: volume suficiente para fazer o braço “aparecer” — sem depender de mil variações.
Treino 5: O “em casa, peso do corpo” (calistenia com tríceps de verdade)
Se você acha que treino de tríceps sem equipamentos vira “meia-boca”, este é um bom lembrete: o tríceps não sabe se a resistência vem de ferro ou do seu próprio corpo. Ele só sabe que está difícil.
A) Flexão diamante (ou mãos próximas)
4 séries de 6–12 repetições
- Se for pesado demais, faça com joelhos no chão ou mãos em superfície alta.
B) Flexão declinada (pés elevados)
3 séries de 6–10 repetições
- Mais carga no empurrar, mais tríceps trabalhando.
C) “Bench dips” (tríceps no banco/cadeira) — com cautela
3 séries de 10–15 repetições
- Se sentir ombro, troque por extensão com elástico ou flexão fechada.
- Mantenha ombros longe das orelhas.
D) Pike push-up leve (opcional)
2–3 séries de 6–10 repetições
- Mais ombro, mas tríceps participa bastante.
Por que vale seu tempo: é um treino que cabe na rotina e te dá autonomia. E autonomia costuma ser o que mantém a consistência.
Como progredir (o detalhe que separa “fiz tríceps” de “melhorei”)
Você só precisa de uma regra simples:
- Se você fez todas as séries no topo da faixa de repetições (ex.: 12–15) com boa forma, aumente um pouco a carga na próxima semana.
- Se estiver em casa: aumente repetições, diminua descanso ou use mochila com peso.
Exemplo:
Semana 1: pushdown 3×12 com 20 kg
Semana 2: 3×13 com 20 kg
Semana 3: 3×15 com 20 kg
Semana 4: 3×12 com 22,5 kg
Sem drama, sem mágica — só progresso.
Erros comuns que fazem você perder tempo (e ganhar dor)
1) Cotovelos “dançando”
Quanto mais o cotovelo abre e fecha sem controle, mais o exercício vira outra coisa. Ajuste carga e amplitude.
2) Pesado demais, cedo demais
Tríceps responde muito bem a repetições moderadas (8–15). Você não precisa provar nada para a barra.
3) Transformar o corpo em catapulta
Se você precisa balançar o tronco para completar repetições, o tríceps já saiu da conversa. Diminuir carga é ganhar resultado, não perder.
4) Só fazer um tipo de movimento
Se você faz apenas pushdown, vai melhorar… até um ponto. Se só faz dips, também. Misture press + extensão para cobrir o conjunto.
Quanto treino de tríceps é “o suficiente”?
Para a maioria das pessoas:
- 6 a 12 séries por semana de tríceps já dão progresso.
- Se tríceps for prioridade e você tolera bem: 12 a 18 séries semanais.
Mais do que isso pode funcionar — mas também pode virar inflamação com cara de disciplina. O corpo não lê sua planilha; ele responde ao que consegue recuperar.
E a postura? E o ombro? Um bônus rápido
Tríceps forte ajuda na estabilidade de empurrar, mas braços não vivem sozinhos. Se você treina muito push (peito/ombro/tríceps), vale equilibrar com puxadas para manter os ombros “no lugar”:
- remadas, puxadas, face pulls, exercícios de escápula.
Isso é menos sobre estética e mais sobre manter o corpo confortável para continuar treinando. O melhor treino é aquele que você consegue repetir.
Um resumo, sem promessas milagrosas
Tríceps “vale seu tempo” quando você:
- escolhe 2–4 exercícios bons,
- faz com técnica estável,
- progride aos poucos,
- e treina com frequência suficiente para o músculo aprender.
Você não precisa de 12 variações. Precisa de um plano que caiba na sua semana e não irrite seus cotovelos.
Escolha um dos cinco treinos acima, repita por um mês, anote o que fez e ajuste com calma. A parte surpreendente do treino de tríceps — como de quase tudo no fitness — é que o resultado raramente vem da sessão perfeita. Vem do acúmulo de sessões boas o bastante.
E isso, no fim, é o que faz o tempo investido valer.
